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sábado, agosto 28, 2004



O CÓDIGO DA VINCI (II) Todo o mistério em volta de Maria Madalena e da subjugação do “Sagrado Feminino” tem a sua origem na misteriosa evolução dos dois primeiros séculos de Cristianismo. As investigações levadas a cabo nos últimos duzentos anos conduzem-nos a um complexo labirinto, com centenas de seitas autónomas e diferentes versões da mensagem de Cristo. Existem também suspeitas de que muitos documentos foram forjados, sendo Eusébio de Cesareia por alguns historiadores considerado um dos maiores falsários da História. Há que ter em conta, no entanto, que quer Constantino, quer Eusébio, não eram cristãos “ortodoxos” – no termo da época, ou seja, o que hoje chamaríamos “apostólicos romanos”.

É, portanto, uma questão complicada, saber quais são os verdadeiros Evangelhos. De todos os livros do Novo Testamento, quais deles são verdadeiramente “originais”?

Sabemos que foi S. Jerónimo quem compilou os textos que deram origem à actual Bíblia, traduzindo-os para o latim e organizando-os na Vulgata. Numa carta aos bispos Chromatius e Heliodorus, S. Jerónimo refere a existência de um Evangelho secreto escrito em hebraico pelo punho do próprio S. Mateus, que estava na posse dos Nazarenos, uma confraria iniciática da Síria. Ainda de acordo com o Doutor da Igreja, os Nazarenos autorizaram-no a traduzi-lo para o latim. Mas Jerónimo não o incluiu na Vulgata, por entender que “(...) continha matérias mais para destruir do que para edificar; e era uma obra difícil (...) O próprio São Mateus, Apóstolo e Evangelista, não queria que fosse publicada abertamente (...) [era para ser usada] pelos homens mais religiosos”(1).

Infelizmente, este Evangelho hebraico de S. Mateus não chegou até nós, talvez por apresentar diferenças substanciais em relação ao Evangelho “oficial”.

Os “homens mais religiosos” que tinham acesso a esses textos eram certamente os “iniciados” nos Mistérios gnóstico-cristãos. Os “Mistérios” existiam em todo o mundo antigo, inclusivé no cristianismo primitivo. O próprio Jesus parece fazer referência a eles: “(...) a vós foi dado conhecer estes mistérios do Reino do Céu, mas a eles não. (...) É por isso que eu uso estas parábolas para falar com eles.” (Mt. 13, 11-13). S. Clemente de Alexandria, por seu turno, afirmou o seguinte, numa clara alusão à celebração dos Mistérios: “O Senhor permitiu comunicarmos estes mistérios divinos e esta santa luz aos capazes de o receber. (...) Ao homem capaz de observar secretamente o que lhe é confiado, o que está velado lhe será mostrado como verdade; o que é oculto à multidão, será manifesto à minoria”(2). O próprio S. Paulo escreveu, a respeito de uma experiência mística que teve, mas cujos contornos não poderia revelar: “Conheci um homem há 14 anos que foi levado ao terceiro céu. Eu mesmo não sei se o seu corpo também lá esteve, ou se foi apenas o seu espírito. Só Deus o sabe. Mas de qualquer maneira esteve no paraíso e ouviu coisas de tal maneira surpreendentes que ultrapassavam as capacidades humanas para descrevê-las por palavras, e até nem posso permitir-me fazê-lo”. (II Cor. 12,1-6).

Vários Padres da Igreja foram influenciados pelo gnosticismo, que se assumia como a vivência esotérica (interior) da fé cristã, procurando conciliar a fé com a razão, de modo a não castrar o conhecimento intelectual do homem. A Igreja oficial, de Constantino em diante, procurou acabar com esta vivência esotérica, em detrimento da exotérica (exterior). Mas os Mistérios sobreviveram no Oriente, onde os Templários os redescobriram na época das Cruzadas.

Seria possível, desse modo, que os Templários possuíssem esses textos apócrifos (“secretos”), que apresentavam uma visão diferente da vida e da mensagem de Jesus. E que, conforme pretende a teoria por detrás do “Código Da Vinci”, nesses “evangelhos” fosse dito que Jesus tivera um filho de Madalena e que era ela a “pedra” sobre a qual a sua Igreja deveria ser construída, e não Pedro. Todavia, ainda que esses documentos existam e venham um dia a ser revelados, quem nos garante que sejam autênticos? Ou que, sendo realmente datados dos primórdios da Cristandade, sejam verdadeiramente fiéis à mensagem de Jesus? Parece-me que é apenas uma questão de fé, uma vez que é impossível provar seja o que for.

Em relação ao “sagrado feminimo”, é curioso verificar que, nos primórdios do Cristianismo, as mulheres acediam aos mistérios e mesmo ao sacerdócio. Por exemplo, na capela de Santa Zenónina, em Roma, existe um mosaico com quatro figuras femininas, uma delas com a inscrição “Theodora Episcopa”, ou seja, “Teodora Bispa”. Entretanto, alguém tentou apagar o “a” do nome da presbítera, mas sem sucesso. No entanto, e no que diz respeito ao sacerdócio, não sabemos até que ponto isto seria usual. Podia tratar-se simplesmente de casos pontuais, mais tarde reprimidos, quando o Cristianismo se tornou a religião oficial e sujeita a controlo do Estado.

Já quanto aos Mistérios, sabemos que, por exemplo, os Templários aceitavam mulheres nas suas fileiras, existindo “monjas templárias”. Na cidade portuguesa de Tomar, por exemplo, existem ainda várias placas evocativas da generosidade de algumas dessas monjas, que a expensas suas construíram igrejas e outros edifícios. Se os Templários possuíam “escolas de iniciação nos Mistérios”, como sustentam alguns autores, então as mulheres também lhes deviam ter acesso. Até porque, de acordo com a doutrina esotérica, o ser interno (o espírito) não tem sexo.

Portanto, neste ponto concreto, a teoria por detrás do “Código Da Vinci” tem alguma razão. É verdade que a Igreja do tempo de Constantino não via com bons olhos o acesso das mulheres ao sacerdócio. Tal como S. Paulo, aliás, se pressupôrmos que as suas cartas pastorais não foram adulteradas.

No que diz respeito a Maria Madalena, não acredito na lenda que serviu de inspiração ao “Código Da Vinci”. Pelo seu lado “fantástico” e pela “conveniência geográfica”, faz lembrar as velhas lendas do ciclo arturiano, com o Graal a ser transportado precisamente para Inglaterra, etc. Considero muito pouco provável que ela tenha escrito um Evangelho (e que o tenha escondido no Templo...), que Jesus lhe tenha confiado a Sua Igreja, que tenha fugido para a Gália e que a sua descendência se tenha fundido com a linhagem Merovíngia. Parece-me que, na origem deste mito, esteja a vaidade e a ignorância dos reis francos da Alta Idade Média, que gostavam de ornar a sua majestade com os títulos bíblicos de “Ungido do Senhor” e “Novo David”. Que melhor forma existiria de se reclamarem sucessores de David e, logo, reis por vontade divina, que intitularem-se descendentes de Jesus? Refira-se que os francos e os galo-romanos dos séculos V e VI aceitariam de bom grado um rei descendente de David via Jesus Cristo, mas não um soberano descendente de David por ser judeu. Para o simples fiel da Idade Média, Jesus não era judeu...

Além disso, é curioso que o “ponto de fusão” entre a suposta linhagem de Jesus com a dos monarcas francos se tenha dado precisamente na época do semi-lendário Meroveu, de cuja existência se conhecem poucos pormenores (se é que se trata de uma personagem real). Para um rei como Clóvis ou Dagoberto, era muito mais fácil justificar a sua ligação à suposta linhagem de Cristo, remetendo-a para um período obscuro, ou mesmo lendário, da história da sua família.

Devo no entanto dizer que o facto de Jesus ter tido uma relação com Madalena – ou com outra mulher – me parece uma hipótese plausível. Afinal, apesar de Filho de Deus, era também um homem. E, embora compreenda que para muitos católicos isso fosse uma “bomba” na sua fé, pessoalmente não considero tal facto assim tão importante. O essencial é a mensagem de Jesus, de paz, amor e fraternidade entre todos os homens.

No entanto, não existem provas dessa relação com Madalena. Acreditar nisso ou não, é apenas uma questão de fé.

Mais se poderia dizer acerca dos elementos do culto das antigas deusas que foram transportados para a devoção mariana, ou para uma eventual secreta devoção a Maria Madalena, por parte dos Templários e de outros grupos iniciáticos. Conto fazê-lo em breve, assim que disponha de mais elementos.


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(1)LOUÇÃO, Paulo Alexandre, in “Os Templários na formação de Portugal”. Ed. Esquilo, 7ª Edição, Lisboa 2003
(2)Idem, ibidem