respublica

sábado, agosto 28, 2004

REPÚBLICA DOS BANANAS No âmbito da sua licenciatura, um amigo meu realizou o seu estágio curricular numa autarquia do Norte do país. Ora sucedeu que, poucos dias antes do término do estágio, o Presidente da Câmara chamou-o para uma reunião em que se discutiria o seu futuro. Ao que parece, haveria a hipótese de esse meu amigo ser contratado pela autarquia, uma vez que o trabalho que realizou enquanto estagiário foi por todos considerado muito satisfatório, para não dizer mesmo excelente.

Esperançoso e com a melhor das disposições, o meu colega compareceu à dita reunião. Todavia, qual foi o seu espanto quando o Presidente da Câmara - fazendo tábua rasa das suas habilitações e do trabalho que entretanto desenvolveu na autarquia - se limitou a perguntar-lhe: “Quem são os seus pais?”. Ao que o meu colega, percebendo finalmente as “regras do jogo”, respondeu: “São pessoas humildes, e por isso o senhor não os deve conhecer”. E esclarecido agora sobre as origens familiares do jovem, o autarca encerrou a reunião comunicando-lhe que a autarquia não estava interessada em contratá-lo.

Este caso é apenas um exemplo entre muitos outros que, embora não tão explícitos, se verificam todos os dias. E os jovens recém licenciados, em busca do primeiro emprego, são espectadores privilegiados desse triste circo que é o da colocação no mercado de trabalho.

Pobre país o nosso, em que os cargos públicos são atribuídos a yes men e “meninos bem”! Pobre país o nosso, em que a competência e o mérito individuais não são tidos em conta! Pobre país o nosso, cujos funcionários públicos são escolhidos com base em cunhas e clientelas político-partidárias! Pobre país o nosso, entregue a uma classe política medíocre e a caciques e baronetes locais, que usam em seu proveito o Estado e as instituições! Pobre país o nosso, que obriga os seus melhores quadros a emigrar em busca das oportunidades e do reconhecimento a que teriam direito na sua pátria, por mercê do seu mérito e das suas qualidades pessoais!

O maior mal de Portugal, e que continua na origem do nosso atraso em relação ao resto da Europa, é esta corja de sôfregos parasitas que - sem distinção de ideologias ou cores partidárias - há séculos mama alegremente na teta do Estado. O nosso maior inimigo é esta mentalidade subsídio-dependente, pesadamente burocrática (ou será “burrocrática”?), mesquinha, tacanha, sem visão, ignorante e provinciana.

Claro que existem cargos em que a confiança pessoal ou política é essencial, e em que se compreende que para a sua atribuição se tenha em conta a recomendação de amigos ou conhecidos. Mas não é a esses casos que me refiro neste artigo.

Também não quero, de modo algum, afirmar que todos os funcionários públicos devem os seus cargos a “cunhas” ou favorecimentos pessoais. Mas com certeza que aqueles que progrediram profissionalmente devido à sua competência reconhecem, por seu turno, que existem muitos outros que devem a sua ascensão a outros factores.