respublica

segunda-feira, janeiro 29, 2007

O Dilema

Volto a repetir: creio que o que está verdadeiramente em causa neste referendo é responder ao terrível dilema a que aludi no meu post anterior. O que é mais importante? A vida intra-uterina ou o bem estar físico e psicológico da mulher grávida?

Ora um dilema é um problema com duas soluções, sendo que nenhuma delas é 100% aceitável. Compreendo, no entanto, que muita gente que está consciente deste dilema vote 'Sim'. Eu voto 'Não'. O que não compreendo é que o «debate» seja dominado por questões laterais, algumas das quais bastante duvidosas do ponto de vista intelectual.

Os apoiantes do 'Sim' servem-se destes «argumentos» para conquistar o eleitorado 'moderado'. É o caso de frases como os estafados «estamos todos contra o aborto» e «ninguém é a favor do aborto», que de quando em quando são interrompidos por slogans do género «na minha barriga mando eu!».

Se os apoiantes do 'Sim' querem que a mulher seja livre de abortar simplesmente porque 'sim', assumam-no. Mas não venham com argumentos desonestos, que servem apenas para confundir e iludir as pessoas.

Importa, por isso, desmitificar as coisas:

1. O aborto clandestino não vai acabar ou tornar-se residual, caso o 'Sim' vença. Vão continuar a realizar-se aos milhares, por esse país fora, após as dez semanas.

2. O número de abortos vai provavelmente aumentar, à semelhança do que aconteceu no resto da Europa, porque se vai tornar uma coisa fácil e, quiçá, banal.

3. É possível despenalizar sem liberalizar (da mesma forma que o consumo de droga está despenalizado, mas não liberalizado). O que o Sim quer, na verdade, é que o aborto não só seja despenalizado, como passe a ser um direito e, ainda para mais, pago pelo Estado.

5 Comments:

  • Meu amigo Filipe, há quanto tempo não vinha visitar esta tua casa...
    Como nos tempos da Universidade, continuo a gostar da tua forma de escrever mas, infelizmente ou talvez não, discordo muitas vezes do conteúdo.

    Como estou com pressa, vou entrar nesta discussão sobre a IVG apenas para comentar os três pontos que pretendes desmitificar.

    1. O aborto clandestino VAI acabar ou tornar-se residual, caso o 'Sim' vença. Acredito que as mulheres sao responsáveis e dizer o contrário é um insulto às próprias mulheres.

    2. O número de abortos não vai aumentar. Vamos é passar a ter estatísticas crediveis e dados concretos. Foi isso que aconteceu no resto da Europa. Quanto ao dizer que "se vai tornar uma coisa fácil e, quiçá, banal" é apenas mais um insulto às mulheres. Ninguém sofre mais com um aborto do que uma mulher. E as sequelas fisicas e psicológicas ficam para toda a vida. Nunca será banal...

    3. Terceiro insulto. A comparar um aborto a consumo de droga parece-me despropositado. E sim, é verdade, quero que o aborto não só seja despenalizado, como passe a ser um direito e, ainda para mais, pago pelo Estado.
    Qual é o problema de ser pago pelo estado?

    Um abraço e prometo voltar mais tarde com mais tempo...

    Pedro Pires

    By Blogger Pedro Pires, at segunda-feira, janeiro 29, 2007 6:49:00 da tarde  

  • Caro Pedro, aqui vai o que eu acho: 1. Os casos de mulheres julgadas pelo crime de aborto, em Portugal, nas últimas décadas, são TODOS de abortos realizados após as dez semanas (em alguns casos, com seis meses de gravidez). Não acredito, muito sinceramente, que este tipo de abortos deixem de existir. Logo, não acredito que o aborto clandestino termine. 2. Em vários países europeus, o número de abortos aumentou exponencialmente nos anos que se seguiram à despenalização. Ou seja, se o aborto for legalizado em Portugal, poderemos ver o seu número aumentar de ano para ano. Portanto, não se trata de ter estatisticas credíveis ou não. 3. Tens razão, não devia comparar o consumo de droga com o aborto. No primeiro, trata-se de um mal auto-infligido. No segundo, trata-se de pôr termo a uma vida humana, ainda que em formação. O mal de ser pago pelo Estado é óbvio: significa que a sociedade é cumplice de algo que é ilícito.

    By Blogger Filipe Alves, at segunda-feira, janeiro 29, 2007 10:16:00 da tarde  

  • Insulto às mulheres??? Isso é muito forte... Penso que aqui o verdadeiro insulto será dar à mulher o total poder e liberdade de abortar - "violar" o direito de uma vida humana. E digo isto como MULHER!!!
    Se esta lei passar, a mulher vai ter direito a abortar sem dar qualquer justificação, a ninguém!!! Isto é uma situação preversa e imensurável do direito à vida!!!
    É possível que passe uma lei onde haja despenalização, mas que não haja liberalização. É por esta lei que temos de lutar. Infelizmente não é esta lei que o governo questiona neste referendo.
    Pensem muito bem no que vão votar, pois este referendo não é a única solução para este problema grave que muitas mulheres portuguesas têm de atravessar!!!

    By Blogger hocuspocus, at sábado, fevereiro 03, 2007 6:17:00 da tarde  

  • 1. Diminui substancialmente. Actualmente é indiferente a uma mulher abortar às 10, às 15 ou às 20 semanas: à luz da Justiça o crime é igual. A partir do momento em que o aborto é despenalizado até às 10 semanas ela passa a ter um incentivo real para abortar até essa data.
    Isto até pela reacção social. Até agora a consciência social tendeu a despenalizar a mulher que aborta. Quando ela passar a ter um prazo legal para o fazer, a não utilização desse mesmo prazo tenderá a ser vista como irresponsabilidade - e a punição será muito mais efectiva. Duplo incentivo para a mulher, portanto.

    2. É um argumento pouco honesto. Os próprios apoiantes do 'Não' usam como arma de arremesso que o aborto deixa graves sequelas psicológicas. Ora, se deixa sequelas psicológicas não é banal - e se é banal não pode deixar sequelas psicológicas. Atenção: não ponho de parte a existência de casos de mulheres para quem fazer um aborto é banal - mas discordo da relevância numérica destes casos. Penso que um estudo empírico pode confirmar isto mesmo.

    3. O 'Sim', em abstracto, não quer nada. O 'Sim' é composto de um monte de pessoas, cada uma com as suas opiniões e com os seus próprios argumentos. Dizer que TODO o 'Sim' quer que o aborto seja pago pelo SNS é como dizer que todo o 'Não' apoia que o aborto seja considerado homicídio e, portanto, punido com 25 anos de prisão. Além de entrar numa lógica de barricada que a mim é muito pouco cara.

    P.S.- Mas claro que é falso que «estamos todos contra o aborto». Eu, por exemplo, não estou.

    By Blogger pedroromano, at segunda-feira, fevereiro 05, 2007 6:56:00 da tarde  

  • Como posso entrar em contacto com o Filipe Alves? Gostava que, por favor, me contactasse para paulorcorreia@gmail.com . Obrigado.

    By Blogger Paulo, at quinta-feira, fevereiro 15, 2007 3:50:00 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home