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quinta-feira, julho 01, 2004




ELEIÇÕES ANTECIPADAS (II) Num corajoso artigo, José Pacheco Pereira critica fortemente Santana Lopes e tudo o que ele representa:

"(...)7. Depois, a herança que Barroso deixou ao país chama-se Santana Lopes, um partido moldado à imagem de Santana Lopes, um governo PPD-PP, muito mais à direita que o que Barroso permitia ser o seu, e uma inflexão de política que inevitavelmente (sublinho, inevitavelmente) vai dar cabo do pouco que se tinha conseguido. Aqui entra um logro e quase uma traição. Barroso fez grande parte da sua carreira partidária contra Santana Lopes, muitos dos seus apoios vinham de pessoas que consideravam que ele era, no partido, a melhor barreira contra um tipo de liderança populista que contrariava a identidade política que pensávamos ter Durão Barroso. Para muitos, era claro que votar Barroso era votar contra Santana Lopes, e se havia “barrosismo” era este o seu sentido político.

8. E por isso me sinto traído, como aliás muita gente que talvez não o diga com esta clareza. Porque há várias coisas de que eu tenho a certeza. Eu não votei nas últimas legislativas no Governo que aí vem. Eu não votei nas últimas legislativas numa coligação PSD-PP, muito menos num governo PPD-PP. Eu não apoiei Durão Barroso para me sair Santana Lopes. O voto, mesmo para os intelectuais e “comentaristas”, como se diz agora com desprezo, não tem nenhuma sofisticação especial. O voto, aliás, tem essa virtude de ser simples e inequívoco, uma escolha. E eu, como muita gente no PSD e no país, nunca fiz a que agora me querem impor. Este é o “golpe de Estado” de que fala Manuela Ferreira Leite. Tem a ver com a substância, não com os estatutos.

(...) 14. Tudo o que caracteriza uma política populista está aqui retratado: decisões pessoais erráticas, apoiadas mais na necessidade de fazer anúncios à imprensa ou contrariar opositores do que no estudo dos problemas, encomendas apressadas, mudanças de última hora, encravamento geral de todo o processo por falta de atenção às condições legais e financeiras. Alguém tem uma ideia de quanto tudo isto já custou ao Município de Lisboa, sem qualquer resultado palpável? Certamente muitos milhões. O resultado vai ser a mais cara fotografia jamais feita em Portugal, a que ilustra o livro de Santana Lopes sobre a “cultura”, Santana Lopes e Ghery mudando Lisboa. É assim que eu não quero que Portugal venha a ser governado. É assim que o será? Não sei. Está escrito nas estrelas."


Absolutamente de acordo. E tal como Pacheco Pereira, sinto-me traído e desiludido.

Entretanto, o CAA da Blasfémia, recorda que existe outro "vice" no partido, Rui Rio. Apesar de tudo, o presidente da câmara do Porto seria uma figura mais consensual - para o país, não para o PSD - que Santana. Mas em minha opinião, só um ministro do actual governo teria legitimidade para governar o país durante os próximos dois anos. Manuela Ferreira Leite, Marques Mendes e Morais Sarmento são as únicas pessoas que poderiam liderar o executivo, sem acusações de usurpação e de falta de legitimidade democrática. Além disso, seria a única forma de o actual programa governamental se manter, indo de encontro aos compromissos assumidos com o eleitorado.

Claro que, optando por essa via, o PSD dificilmente venceria as eleições de 2006. Mas o que é mais importante? Fazer como o PS - muita treta e pouca obra - ou governar a pensar nos interesses do país? Haja coragem. Além de que, da forma que as coisas estão, o próprio Santana Lopes terá grande dificuldade em vencer as eleições. Nunca se livrará da acusação de usurpar o poder. Já há quem lhe chame "D. Pedro VI, O Usurpador".